sexta-feira, 18 de agosto de 2017

KUROFUNE NAMBAN XXI




O território do Japão foi visitado pelos primeiros Europeus no ano de 1443. Uma nau do trato amarou na ilha de Tanegashima e alterou para sempre o destino dos habitantes do arquipélago do Sol-Nascente. Apesar do fascínio que o Japão sempre imprimiu nas gentes do Ocidente este continua envolto em mistério e soam distantes os caminhos dos descendentes dos Samurais.

Essas gentes incluem os Portugueses actuais que descendem precisamente daqueles que viram pela primeira vez os estranhos insulares cujos modos, trajes e língua lhes causaram  a mesma sensação que na actualidade teria a aterragem, em plena Praça do Comércio, de um objecto voador vindo das estrelas e do seu interior emergisse uma cultura tão distinta da humana que seria motivo de grande espanto e curiosidade.

No Japão existe uma especial amizade pelo povo que ocupa a Ocidental Praia Lusitana e que à 250 anos ofereceu ao Daimio local um arcabuz. Tal como agora cerca de um ano depois essa arma fazia parte dos exércitos em combate e motivou a convergência dos antagonistas finais terminando a era belicista civil que tingiu o Japão com o vermelho acre do sangue dos moribundos e dos milhares de mortos.

Com os portugueses chegou também o advento de uma nova espiritualidade, novos modos e novas ideias, palavras e costumes.

Mas o clã dominante, os Tokugawa, compreendeu o perigo que era para si a chegada de uma nova espiritualidade e expulsou definitivamente todos os ocidentais encerrando o território e iniciando aquilo que se denomina nas narrativas históricas como o Shogunato.

Encerrado sobre si mesmo o Japão depurou a sua arte, sofisticou os seus costumes e alinhou definitivamente a sua assinatura no mundo riscando-a com um perfume tão intenso que nunca mais deixou de encantar os povos desse mesmo mundo.

O apelo do Japão é o apelo do requinte, o apelo da suavidade das brisas marinhas e das vozes das florestas seculares das muitas ilhas que constituem o seu território.

Mas o Japão é também o lado fraterno, a largura da eternidade e o berço daquilo que o mundo actual, lançado numa corrida desmedida rumo a um futuro incerto, parece desejar esquecer mas que tanto necessita relembrar;

O tal silêncio ruidoso que rufa dentro de cada espírito, de cada vontade devolvendo-nos o divino na forma de uma escrita que não se vê, de uma voz que não se ouve e de um odor que não se consegue olfaltar.

Ou seja o tempo onde contemplamos a beleza do mundo e a diversidade que os povos animam para realizar que vivemos numa nave errante onde somos um todo de uma unidade que nos empresta tudo sem nada nos cobrar.

E naquilo que nos faz ser portugueses coexistiu pelos séculos a amizade desse povo singular que de repente viu emergir do vazio oceânico uma estranha nave negra e do seu interior uns ruidosos e engenhosos "narigudos" que nada fazia prever vir a tornarem-se a causa de um efeito aglutinador e por fim depurador de uma cultura milenar;

A do Japão.

Por isso, neste inicio de século tão violento, e imprevisível, devemos abraçar o Japão e o seu compromisso pacifista perante o mundo trazendo para a capital do solo Lusitano o Domus do Nippon.

A Casa do Japão e nela o motor vivo que alimenta novas gerações de ambas as nações.

1. O culto do antigo como forma de alcançar uma relação integradora na sociedade onde se forma a nossa identidade colectiva origina;

2. O culto do futuro onde se treinam as capacidades intrínsecas com que se nasce, berço da criatividade intima e pessoal;

3. O culto do do presente em harmonia, liberdade e fraternidade.

No fundo aquilo que nos torna tão fascinantes perante o outro.

A vibração singular que nos distingue e que por isso mesmo tanto o fascina.

Mário Cardoso,
Arquitecto
Fundador da ASAO XXI
http://asao-xxi.blogspot.pt